Título: Dostoiévski-Trip
Autor: Vladímir Sorókin
Tradução: Arlete Cavaliere
Editora: 34
Páginas: 104
Ano: 2014
ISBN: 9788573265613
Onde Comprar: Amazon - 34

Sinopse: Em um lugar indefinido, cinco homens e duas mulheres aguardam ansiosos a chegada de um incerto vendedor. Enquanto isso, conversam, discutem e até brigam acerca de grandes nomes da literatura mundial (Kafka, Púchkin, Céline...) e seus supostos efeitos nos leitores-consumidores. Não se trata, porém, de uma tertúlia amistosa entre amantes das letras, e sim de um bando de junkies que mal se conhecem, unidos apenas pela condição de viciados em literatura, todos ávidos pela próxima dose. 


Nesta peça em um ato, que se lê como um romance ou novela curta, Vladímir Sorókin, um dos nomes mais importantes - e radicais - da literatura russa atual, lança personagens e leitores em uma jornada tensa e intensa pelo universo de Dostoiévski, de seus dilemas filosóficos e existenciais, que ele aprofunda, potencializa, transcende e transporta para as formas do mundo e da literatura contemporânea. Lírico e pornográfico, escatológico e sublime, divertido e visceral, Dostoiévski-trip bate forte e tem efeito prolongado. Mas aqui não há lugar para cautela ou moderação. Boa viagem.

Resenha: Dostoiévski-Trip é uma peça de teatro e foi escrito pelo autor russo Vladímir Sorókin. Publicado originalmente em 1997, a obra chegou no Brasil em 2014 por meio da editora 34. Baseado no Idiota de Fiódor Dostoiévski, logo de início o autor nos apresenta um grupo de sete amigos, esse grupo é composto de cinco homens e duas mulheres, eles estão à espera de um vendedor, mas não é um vendedor qualquer, ele vende drogas (traficante) em forma de pílulas que são capazes de levar o ser humano ao êxtase e ao delírio, essas drogas são na verdade para pessoas viciadas em livros e por isso cada pílula tem um nome de algum autor, seja ele Alexandre Dumas, William Faulkner, Nabokov, Tolstói e outros.

"Não gostei? (Ri) Como é que se pode gostar disso?  Tolstói! Há três anos, eu e um cara descolamos uma grana, e então demos uma boa relaxada em Zurique: primeiro Céline, Klossowski, Beckett, e depois como sempre algo mais leve: Flaubert, Maupassant, Stendhal. E no dia seguinte eu já acordei em Genebra. Mas em Genebra a situação já era bem diferente de Zurique." p. 13.
Após um certo momento de espera e angústia, os personagens finalmente recebem o vendedor que até então nunca se tinha atrasado em qualquer entrega. Em meio a discussões sobre qual droga utilizar (citando nomes de diversos grandes autores), o vendedor vê a dúvida de todos e sugere uma droga nova, trata-se de uma das últimas descobertas, é promessa de um bom "barato" e ainda por cima é será fácil de sair dessa "viagem" por meio de outros autores, sem contar que essa droga vai atender todos eles. O vendedor recomenda Dostoiévski para todos e eles não conhecem esse autor, mas diante das promessas do vendedor resolvem fazer essa viagem.

"Vocês vão ler e depois vão correr atrás de mim para uma segunda dose. E ainda vão dizer "obrigado."" p. 19.

Após adquirirem o produto e utilizarem suas respectivas pílulas os personagens ficam saciados e some toda angústia, mas agora eles assumem e incorporam os personagens do célebre romance "O Idiota" de Dostoiévski que foi publicado em 1869. Desse momento em diante eles passam a encenar uma cena importante do romance de Dostoiévski, eles encenam o momento em que Nastácia Fillíppovna faz um leilão de si mesmo.
Opinião: Dostoiévski-Trip é ao meu ver uma releitura de parte de "O Idiota", o autor nos leva a conhecer a densidade dos personagens do livro de Dostoiévski fazendo uma análise desses personagens. É também interessante acompanhar os efeitos colaterais dessas drogas nos personagens, pois eles passam a realizar monólogos onde o drama e sarcasmo estão presentes em cenas surreais, mas que demonstram a construção trágica e fatídica de cada personagem. Essa leitura é uma viagem sobre o descobrimento sentimental onde existe uma ideia sobre um mundo a ser descoberto. O autor apresenta dilemas no campo da reflexão como os existências e filosóficos. Dostoiévski-Trip foi uma leitura que me tirou da zona de conforto, pois tenho explorado a literatura russa e do leste europeu há pouco tempo e confesso que gostei muito da leitura. 

A premissa e ideia de Vladímir Sorókin são muito boas, mas como eu li "O Idiota" apenas em quadrinhos sinto que me faltou profundidade, um maior conhecimento sobre a obra. Mas pretendo fazer essa releitura após ler "O Idiota", algo que quero fazer em breve. Recomendo a leitura de Dostoiévski-Trip para quem quer conhecer a escrita de Sorókin, mais por esse ser um livro intrigante, por apresentar um humor ácido, ser uma paródia ao livro do Dostoiévski e se apresentar como uma alegoria para aqueles que são viciados em livros (eu por exemplo).
Sobre a Edição: Dostoiévski-Trip conta com uma capa psicodélica e que ao meu ver está de acordo com o conteúdo apresentado pelo autor. A edição foi impressa em papel lux cream 80 g/m (folhas amareladas), a revisão ficou muito boa, a fonte e espaçamento ficaram bem confortáveis e seguem o padrão de outros livros da editora. A diagramação é simples, mas ficou excelente.
Sobre o Autor: Vladímir Sorókin nasceu em 1955, na cidade de Bykovo, perto de Moscou, e em 1977 graduou-se como engenheiro. Ainda nos anos 1970 participou de diversas exposições de arte e trabalhou como desenhista e ilustrador. Sua atividade como escritor se desenvolveu no mundo moscovita underground da década de 1980, e em 1985 seu romance A fila foi publicado na França. Os textos de Sorókin foram banidos durante o regime soviético, e somente em 1992 foi lançada em seu país uma edição de seus Contos escolhidos. Nas últimas décadas, escreveu, além de peças, como Dostoiévski-trip (1997), vários romances, entre eles O dia do oprítchnik (2006) e a trilogia Gelo (2002), O caminho de Bro (2004) e 23000 (2005). Manteve sempre um tom crítico em relação ao atual regime político da Rússia, e seus livros estão hoje traduzidos para mais de vinte idiomas.