Título: Contos - Volume I
Autor: H. P. Lovecraft
Editora: Martin Claret
Páginas: 213
Ano: 2017
ISBN: 9788544001547
Onde Comprar: Amazon - Saraiva

Sinopse: Nesta edição, reunimos alguns dos contos mais famosos de H. P. Lovecraft, que figuram o chamado “Ciclo do terror”. O volume contém “A fera na caverna”, “A rua”, “O que vem da lua”, “O perverso clérigo”, “Ele”, “Ar frio”, “Os ratos nas paredes”, “O modelo Pickman”, “A gravura da casa maldita” e “Herbert West – Reanimador”. Uma leitura imperdível para os amantes do horror. 


Resenha: Howard Philips Lovecraft é um dos grandes nomes da literatura de terror, ele é considerado um autor clássico do gênero e serviu de inspiração para muitos outros autores. Apesar da Editora Martin Claret ter publicado uma coletânea em 2016 com obras do autor, chamada Grandes Contos, no segundo semestre de 2017 a editora apostou e resolveu publicar o primeiro volume com contos do autor em uma edição mais enxuta. Nesse primeiro volume a editora selecionou dez contos que veremos abaixo.

A Fera na Caverna: Esse é o primeiro conto dessa edição e acompanhamos a história de um homem que parte para visitar a Caverna de Mamute e seus intermináveis labirintos acompanhado de uma expedição conduzida por uma guia, mas em determinado momento dessa exploração ele se perde do grupo. Munido apenas com uma tocha que está perdendo a sua chama, ele acaba embrenhando nas entranhas da caverna, onde passa a pressentir uma presença estranha, a presença de uma fera bestial.
"A conclusão horrível que se insinuava gradualmente em minha mente confusa e relutante era, agora, uma terrível certeza. Eu estava perdido, completamente, perdido e desesperançado nos recessos vastos e labirínticos da Caverna Mamute." p. 21.

Opinião: A Fera na Caverna é um conto curto e retrata a mudança de um homem calmo e rico em conhecimentos filosóficos, vemos a sua transformação, todo o horror que ele sente diante do desconhecido e toda a sensação que ele tem de estar sozinho e abandonado. O sentimento de salvar-se, toda a esperança que ele tem de sair dessa situação dá lugar a um sentimento de desesperança. Esse é um conto de horror psicológico, muito bem escrito por sinal!

A Rua: Essa é a história que começa com a fundação de uma Rua em uma cidade por nós desconhecida. Essa Rua era considerada maravilhosa, porém com o passar do tempo essa rua vai sofrendo transformações e alterações, a lei e as virtudes deixadas se perderam, pois em certo momento os moradores de origem "branca" dão lugar aos imigrantes e também moradores "negros". Com essas mudanças a Rua perde toda a maravilha, ela entra em declínio e é arruinada por esses novos moradores, porém a Rua apresenta sentimentos sobre tudo o que aconteceu e está acontecendo.

"Há quem diga que as coisas e os lugares têm alma, e há quem diga que não; não me atrevo a dar meu próprio parecer a respeito, apenas falarei da Rua." p. 33.

Opinião: Nesse conto vemos a personificação de um lugar, pois Lovecraft dá vida A Rua, um lugar ou coisa que tem a sua própria alma. Esse não é bem um conto de terror, na verdade é uma visão sobre um local que foi construído por brancos ou anglos-saxões, mas que com o passar do tempo foi recebendo imigrantes e negros, essa mudança de etnia ou cor da pele no local é vista como uma degradação, uma degeneração e declínio do local. Para quem não sabe, Lovecraft era considerado racista, xenófobo e anti-semita.

O Que Vem da Lua: Essa é uma história extremamente curta, em um verão espectral acompanhamos o relato e as experiências que um sujeito viveu em um jardim durante uma noite. Esse homem tinha pavor e não gostava da lua, ele detestava toda a influência que a lua exercia sobre o jardim, as plantas, o mar e todas as coisas ao seu redor, pois algumas coisas inexplicáveis e aterradoras aconteciam sob o luar.

"Enquanto eu percorria a margem, esmagando com pés descuidados as flores dormentes, sempre enlouquecido pelo termo do desconhecido e das armadilhas de rostos mortos (...)." p. 46.

Opinião: Esse conto parece ser um sonho do narrador, tem um tom gótico, coisas misteriosas acontecem e eu particularmente não consegui descobrir se esse homem sem nome sobreviveu ou não. Lovecraft utilizou como inspiração para esse conto de horror a natureza, ele dá vida ao conto por meio dos cenários criados contando com incríveis descrições.

O Perverso Clérigo: Esse conto retrata um personagem que mexe em algo onde não deveria mexer. Nesse conto um homem é conduzido até um sótão de uma velha construção onde viveu um clérigo e logo de cara ele recebeu um aviso importante, não deveria mexer em nada, em nenhum dos bens de um falecido clérigo. Porém, andando pelo sótão ele descobre um pequeno objeto em cima de uma mesa que chama a sua atenção e a curiosidade fala mais alto, pois ele mexe nesse pequeno objeto e daquele momento em diante ele começa a ver fantasmas, algo que muda completamente a sua vida.

"Um homem sério, de aparência inteligente, com roupas discretas e barba grisalha, conduziu-me a um aposento no sótão e falou-me (...)." p. 51.

Opinião: O Perverso Clérigo é um conto peculiar e aborda um tema que todos nós já ouvimos de nossos pais ou avós, "Mexer onde não deve", isso normalmente é uma receita para algo de errado acontecer e o nosso protagonista não fica ileso em face ao ato que cometeu, mexer onde não devia. Esse conto tem belas descrições, tem um ar de mistério e suspense, além disso é muito envolvente e posso dizer que é um dos meus contos favoritos. O sobrenatural é quase tangível, é quase palpável nesse conto.
Ele: Aqui acompanhamos um sujeito solitário e desiludido que gosta de passear e apreciar as partes e construções antigas da cidade de Nova York durante a madrugada. Esse homem fica imaginando algumas histórias enquanto aprecia as construções ao seu redor, tudo na mais tranquila calmaria. Porém, em certo momento ele conhece um homem misterioso que revela estar observando-o há algum tempo. Esse homem convida o protagonista para conhecer algumas partes da cidade (ocultas) que ele talvez poderia gostar, convite esse que é prontamente aceito.

"Eu o vi numa noite de insônia enquanto em desespero perambulava para salvar minha alma e minha visão. Fora um erro ter mudado para Nova York (...)." p. 61.

Opinião: Ele é um conto com uma forte marca do sobrenatural, o homem misterioso criado por Lovecraft me passou a impressão de ser um vampiro por suas características, porém não é. O interessante do conto é que o protagonista conhece lugares extremamente antigos, algo que ele sequer imaginou se possível ainda existirem; além disso, algumas revelações levam a crer que ocorrem por meio de uma viagem no tempo e espaço.

Ar Frio: O conto ocorre no ano de 1923 na cidade de Nova York e nos deparamos com um protagonista que está trabalhando em uma revista e tem pouco dinheiro. Ele decide se instalar num antigo casarão de quatro andares construído por volta do ano de 1840 que serve como pensão. Em certo momento ele tem a sua vida salva por Dr. Munhoz, um grande médico que mora na mesma pensão, mas ele é um pouco estranho. O sujeito gosta de manter uma temperatura muito baixa em seu quarto, e como retribuição aos cuidados recebidos do médico, o protagonista passa a ajudá-lo a manter bem baixa.

"Você me pede que explique por que tenho medo de um golpe de ar frio, por que tremo mais que as outras pessoas quando entro em uma sala fria e dou demonstrações de náusea ou repulsa quando o friozinho da noite invade o calor de uma suave noite de outono." p. 81.

Opinião: Eu gostei muito desse conto, na verdade é uma história arrepiante, perturbadora e lembra muito alguns trabalhos de Edgar Allan Poe. É interessante acompanhar o comportamento do médico, algo que revela um pouco a sua condição. Ar Frio demonstra a escrita madura e exuberante de Lovecraft. A ausência de monstro nesse conto não me decepcionou, pois esse conto é incrível!
Os Ratos nas Paredes: Temos aqui um dos maiores contos do livro e conhecemos a história do, protagonista que decide restaurar a antiga casa da família Delapore em Exham Priory, Inglaterra. A reputação da família Delapore está arranhada devido a alguns acontecimentos do passado. Essa casa apresentava um grande problema, era infestada de ratos. Só tem um único porém, apenas o protagonista e seus gatos eram capazes de escutar os ratos e para não ser taxado como louco, ele chama algumas pessoas e amigos para ajudá-lo, o que eles não esperavam é que iriam descobrir algo terrível.

"Em 16 de Julho de 1923, mudei-me para o Exham Priory depois que o último trabalhador completou sua tarefa. A restauração fora uma tarefa estupenda, pois pouco havia permanecido na propriedade abandonada além de algumas paredes em ruínas (...)" p. 97.

Opinião: Publicado originalmente em 1924, Os Ratos na Parede é um conto de horror gótico que retrata a insanidade, a loucura e os segredos de família, esse é outro conto que fica clara a influência de Poe na escrita de Lovecraft. O autor por sinal nos conduz por uma história com uma atmosfera pesada, mas incrível. Lovecraft nos apresenta um tipo de maldição ancestral, onde os descendentes acabam sofrendo pelos pecados e mazelas cometidas por seus antepassados.
O Modelo Pickman: Nesse conto acompanhamos Thurber o narrador e protagonista que vai até a casa de Pickman após receber um convite do mesmo. Pickman é um artista e pinta quadros, porém suas obras de arte são constantemente rejeitadas pelas galerias de arte da cidade devido ao conteúdo macabro apresentado. Esses quadros continham criaturas horrendas e sinistras, além de situações que retratavam uma maldade inimaginável. Chegando na casa de Pickman o narrador acaba ficando fascinado e ao mesmo tempo horrorizado com a realidade desses quadros, e ele ainda descobre de onde vem essas inspirações para o artista.

"A arte mórbida não me choca, e quando um homem tem o gênio que Pickman tinha considero uma honra conhecê-lo, independentemente da direção tomada por seu trabalho." p. 132.

Opinião: Lovecraft cria um clima de mistério e terror sensacional nesse conto, suas descrições sobre tudo o que ocorre na casa de Pickman contribui para deixar esse clima de terror mais sinistro. Esse conto foi realmente uma bela surpresa, é envolvente e enigmático, essa é uma história maravilhosamente assustadora. Lovecraft combina elementos como horror, misticismo e arte de forma magistral.

A Gravura da Casa Maldita: Esse conto serviu como base de inspiração para a ilustração da capa do livro. Aqui o personagem principal busca abrigo da chuva em uma casa aparentemente abandonada localizada no topo de uma colina. Ao chegar na casa, o jovem inicia uma investigação e averígua o local, lá ele encontra um raro livro que estava aberto demonstrando uma certa gravura. Pouco depois o dono da casa aparece, mas ele não fica incomodado ou irritado com a invasão desse jovem em seu lar e os dois começam a conversar, só que o anfitrião com o decorrer da conversa demonstra ser bem estranho e suspeito.

"Pessoas que buscam o terror visitam lugares estranhos e longínquos. A elas se destinam as catacumbas dos Ptolomeus e os mausoléus esculpidos dos países do pesadelos (...)" p. 155.

Opinião: Essa história parece com aquelas histórias clássicas e clichês de terror, onde uma casa abandonada serve de abrigo das intempéries. Esse conto é curto e de rápida leitura, trata-se de outro conto arrepiante e que demonstra toda a capacidade de criação e imaginação do autor. Por fim, esse conto apresenta diversos elementos clássicos do terror, coloco A Gravura da Casa Maldita entre os mais legais do livro.

Herbert West Reanimador: Esse é o último conto do volume I e a tradutora Lenita nos avisa que Lovecraft publicou esse conto dividido em seis partes. Narrado por um protagonista sem nome que tornou-se amigo de Herbert West enquanto estudavam medicina na Universidade de Miskatonic em Arkham. Esses dois médicos, com o passar dos anos, tornam-se especialistas em reanimar corpos, isso ocorre de forma ilegal e na surdina, pois a Universidade proibiu tais experimentos. Os médicos realizam experimentos em animais, até que passam a realizar os seus experimentos em cadáveres humanos, eles desenterram corpos e os utilizam para aprimorar as técnicas que elaboraram para a ressuscitação, eles querem vencer a morte de qualquer forma, mas algo muito errado acontece.

"A idade é mais caridosa para com esses personagens que, apesar de sua alma elevada, são incompletos, cujo pior vício é a timidez, e que são enfim ridicularizados por todos em virtude de seus pecados intelectuais (...)" p. 181.

Opinião: É interessante ver como os protagonistas possuem comportamentos distintos, enquanto West é um homem lunático e obcecado, o narrador nem ao menos se dá ao trabalho de justificar as suas ações. Aliás, essa obsessão de West por cadáveres vai aumentando ao longo do tempo. Esse é um conto de horror com ambientação gótica, uma trama macabra e fantasiosa. Essa história é uma paródia ao Frankenstein de Mary Shelley.
Opinião Geral: Falar sobre Lovecraft é "chover no molhado", pois eu adoro a escrita do autor, fico completamente compenetrado na leitura e arrebatado por seus contos. O autor trabalha o terror e o desconhecido de forma magistral, encontramos uma forte carga de terror e suspense psicológico em seus contos, o sobrenatural também dá as cartas, é diante do desconhecido que o autor trabalha com o nosso imaginário, pois não sabemos ao certo o que esperar, o que está por vir. Destaco os contos mais extensos do livro, pois são nesses que Lovecraft nos envolve, nos conquista. Em alguns momentos eu ficava condoído, compadecido com a desgraça alheia, situações essas que tiveram como motivações: entrar em casa abandonada, mexer em algo considerado não recomendável ou mesmo o fato de estar sozinho e no breu em uma caverna.

Eu particularmente adorei a seleção de contos, a Martin Claret conseguiu diversificar bem, essa edição tem seis contos inéditos (Ele, Ar Frio, Os Ratos nas Paredes, O Modelo Pickman, A Gravura da Casa Maldita e Herbert West Reanimador) em relação a edição Grandes Contos publicada pela própria Martin. Por meio desses contos, Lovecraft nos traz situações pitorescas, bizarras e arrepiantes. Fica claro que seus personagens estão na tênue linha da sanidade com a insanidade. Por fim, fica claro a grande influência que Edgar Allan Poe teve na escrita de Howard Philips Lovecraft. Esse livro é incrível, super recomendo para fãs de literatura clássica, mas principalmente para aqueles que gostam de terror, suspense e do sobrenatural.
Sobre a Edição: O que dizer dessa edição? Temos aqui mais uma linda edição da Martin Claret e faz jus ao nome e esse universo Lovecraftiano. A edição conta com capa dura, essa capa por sinal ficou maravilhosa e retrata um conto do livro, além disso corrobora o clima de suspense, mistério e terror presente nos contos. Esse exemplar conta com diversas ilustrações que retratam e combinam com os dez contos. A revisão ficou muito boa, o tamanho da fonte também, a fonte por sinal está com uma tonalidade em azul no corpo do texto e o título dos contos está na cor rosa. O espaçamento e margem estão confortáveis. Essa edição ficou simplesmente maravilhosa e não deve em nada para as edições de editoras concorrentes, vai simplesmente da preferência de cada um. Deixo meus parabéns para a equipe da Martin Claret por tamanho capricho e zelo!
Sobre o Autor: Howard Phillips Lovecraft, filho de Sarah Susan Phillips e Winfield Scott Lovecraft, nasceu na casa de seus avós maternos em 20 de agosto de 1890 em Providence, Rhode Island, Estados Unidos. Lovecraft tinha uma saúde delicada, fato que lhe impedia de frequentar a escola assiduamente. Lovecraft, foi uma criança precoce. Aos três anos foi alfabetizado, lia e recitava poemas. Aos cinco anos leu As Mil e Uma Noites; e aos seis escreveu O Poema de Ulisses, obra rimada com 88 linhas inspirada na Odisséia. A partir daí, o jovem estuda em casa sem o acompanhamento de tutores. Retorna para a mesma escola em 1902. Neste período, interessa-se por astronomia e redige o "Jornal de Astronomia de Rhode Island" que teve 69 edições.

Em 1936, a notícia do suicídio do seu amigo Robert E. Howard deixou-o profundamente entristecido e abalado. Nesse ano, a doença que o mataria (câncer no intestino) já avançara o bastante para que pouco se pudesse fazer contra ela. Pelos meses seguintes, Lovecraft aguentou dores cada vez mais crescentes, até que, a 10 de março de 1937, viu-se obrigado a internar-se no Hospital Memorial Jane Brown. Ali morreria cinco dias depois. Contava então 46 anos de idade.