Título: O Mestre e Margarida
Autor: Mikhail Bulgákov
Editora: Editora 34
Páginas: 408
Ano: 2017
ISBN: 9788573266801
Onde Comprar: Amazon - Editora 34

Sinopse: Espécie de Fausto russo, inspirado na obra de Goethe e na ópera homônima de Charles Gounod, O mestre e Margarida, de Mikhail Bulgákov, é considerado um dos grandes romances do século XX. Situado na Moscou dos anos 1930, o livro narra as peripécias de satã na cidade acompanhado de um séquito infernal, composto por um gato falante e fanfarrão, um intérprete trapaceiro, uma bela bruxa e um capanga assustador. Seu caminho se cruzará com o dos amantes mestre e Margarida — ele um escritor mal compreendido, autor de um romance sobre Pôncio Pilatos, ela uma das personagens mais fortes da literatura russa, que, qual Orfeu, fará de tudo para reencontrar seu amado desaparecido. Escrito entre 1928 e 1940, ano da morte do autor, mas só publicado no fim dos anos 1960, no Ocidente, e em 1973, na Rússia, o livro se tornou então sucesso imediato no mundo todo e inspirou centenas de adaptações para o teatro, cinema, televisão, animação, ópera, dança e música. História de amor e desejo, sátira do mundo das letras e das pequenas e grandes vaidades humanas, além de crítica ferina mas bem-humorada ao regime soviético, o romance empresta recursos da linguagem teatral, musical e mesmo da linguagem cinematográfica, com cortes e saltos temporais e espaciais que imprimem à narrativa um ritmo vertiginoso, divertido e sempre surpreendente — tudo isso captado com maestria pela tradução de Irineu Franco Perpetuo, feita a partir da mais recente edição crítica russa. 


Resenha: Em "O Mestre e Margarida", Mikhal Bulgákov nos leva para a cidade de Moscou dos anos de 1930. É uma tarde de primavera e acompanhamos no Largo do Patriarca (Patriarchy Prúdy) a conversa de dois cidadãos, Berlioz o editor de uma revista de artes e presidente de uma associação literária de Moscou com o poeta Ivan Nikoláievitch Ponyriov, que escreve os seus trabalhos sob o pseudônimo Bezdômny, o tema central da conversa dos dois era Jesus, pois o editor encomendara ao poeta um poema antirreligioso e ficou insatisfeito com o que Bezdômny escrevera.

"(...) Berlioz queria demonstrar ao poeta que o principal não era como Jesus tinha sido, mau ou bom, mas sim que esse Jesus, como indivíduo, jamais existira, e que todas as narrativas a seu respeito eram simplesmente invencionices, o mais corriqueiro dos mitos." p. 17.

Quando ambos começam a conversar sobre a existência de Jesus, eis que surge um homem misterioso e se intromete na conversa de Berlioz e Bezdômny. Esse misterioso homem apresenta-se como sendo um professor e historiador. Esse homem é Woland e ele defende piamente a tese de que Jesus realmente existiu e que inclusive ele presenciou a vida de Jesus de perto. Porém, a existência de Jesus e o fato de Woland ter presenciado a vida de Jesus de forma próxima é algo inconcebível para a dupla, pois eles consideram-se ateus e não acreditam nas forças sobrenaturais. Woland realiza então duas previsões sobre o destino e a vida de Berlioz e Bezdômny, a primeira profecia cumprida é sobre Berlioz e deixa Bezdômy completamente assustado, o poeta inclusive começa a fugir de Woland; fica claro que ele é o diabo em pessoa.

"(...) como o homem poderia governar se ele não apenas está privado da possibilidade de elaborar um plano para um período relativamente curto, como, digamos, mil anos, mas nem consegue responder pelo dia de amanhã? (...)" p. 22.
Assustado, Bezdômny busca alertar a polícia sobre o professor Woland e alega que ele usa uma identidade falsa, porém ele acaba caindo em descrédito e é levado para um hospício onde conhece outro homem que se auto-denomina Mestre, ele acredita ter conversado com o próprio diabo em pessoa. Bezdômny e o Mestre buscam encontrar uma forma de desmascarar e revelar a identidade do professor para o mundo, porém o Mestre perde-se nas lembranças do passado e em sua amada, Margarida.

"Porém, a feitiçaria, como se sabe, basta começar que ninguém segura." p. 82.

Margarida Nikolaievna, uma jovem mulher que pertence a classe da burguesia, ela casou-se apenas por interesse, porém, certo dia, infeliz com essa união ela resolve largar tudo para fugir com o seu grande amor, o Mestre. Ele é um escritor de meia-idade que escreveu um romance protagonizado por Pôncio Pilatos que, nas escrituras sagradas, nada faz para evitar a crucificação de Jesus. Encorajado por Margarida, ele publica um trecho da sua obra e isso desperta a fúria de intelectuais que são aliados ao regime de Stálin. Abatido e perseguido pelos críticos, o mestre queima o manuscrito do seu romance e desiludido com o meio literário, acaba num manicômio.

Em sua visita por Moscou, Woland não está sozinho e conta com a companhia de alguns seguidores, na verdade um séquito infernal. Com Woland, andava um grupo composto por um gato falante chamado Behemoth que incrivelmente conseguia andar sobre duas patas, demônios como Azazzell e Abadon, uma bela bruxa chamada Hella e Korôviev, um negociador. Esse estranho e misterioso grupo aproxima-se da comunidade artística e intelectual na cidade de Moscou, eles agendam diversas apresentações no Teatro de Variedades da cidade que são anunciadas como "Sessões de Magia Negra". Esse grupo causa um enorme furor, trazendo a loucura e a desordem por onde passam. Os caminhos de Woland e seu grupo acabam cruzando com os de Mestre e Margarida, ela por sinal busca reencontrar o seu grande amor.

Opinião: O Mestre e Margarida é uma leitura complexa e densa, esse é um romance que vai desafiar o leitor. Bulgákov apresenta um texto que certamente vai tirar o leitor de sua zona de conforto. O autor apresenta uma sátira àquele período histórico, tece uma forte crítica ao regime despótico de Josef Stalin,  tece críticas a esse governo que foi sustentado por meio de muita vigilância e de um estado administrativo repleto de departamentos. Mikhail Bulgákov também fala sobre como as pessoas são egoístas, de como elas se esquecem do bem maior quando podem levar alguma vantagem, quando podem ter algum benefício próprio.

Bulgákov nos presenteia com uma inteligente e repleta de humor, o autor ainda  abre espaço para no final do seu romance introduzir uma reflexão sobre a natureza da bondade, algo que é sugerido nas conversas entre Jesus e Pôncio Pilatos. Bulgákov também 
cria um contraponto, uma oposição entre Moscou e Jerusalém. Enquanto Moscou é descrita e apresentada como um cenário mítico, por onde podemos ver bruxas e demônios, a cidade de Jerusalém no tempo de Jesus é retratada de forma magistral com extremo rigor histórico. O Mestre e Margarida foi uma leitura difícil, porém é um livro incrível, como eu disse acima aborda diversos elementos como: críticas sociais, usos e costumes, fatos históricos, amor e liberdade. Antes que eu esqueça, Mick Jagger deixou registrado que o romance de Bulgákov serviu como inspiração para a criação da música Sympathy for the Devil (Simpatia pelo Diabo). Essa leitura foi incrível, esse é um livro soberbo e só tenho que agradecer à Editora 34 por me enviar essa obra-prima!
Sobre a Edição: A Editora 34 caprichou na edição, a capa é linda, retrata Moscou e tem tudo a ver com a história. As folhas são amareladas (impressão em papel pólen soft), a edição recebeu nova tradução e a revisão ficou excelente. A fonte e o espaçamento estão confortáveis. O livro conta ao todo com 32 capítulos mais epílogo, essa divisão ficou ótima, pois facilita a leitura. O livro conta ainda com notas sobre a tradução, notas de rodapé, posfácio com informações sobre o autor e sobre o tradutor.
Sobre o Autor: Mikhail Bulgákov nasceu em 15 de maio de 1891 na cidade de Kiev, Ucrânia. Bulgákov era o primogênito de um professor de seminário. Ao fim da Guerra Civil acabou em Paris. Começou a trabalhar como jornalista. Em 1913 casa-se com Tatiana Lappa. Formou-se em medicina mas decide seguir a literatura. Três anos depois de mudar-se para Moscou, casa-se com Lhubov Belozyorskaya. Publicou vários livros na década de 1920, mas por volta de 1927 começa a sofrer críticas de comportamento anti-soviético. Em 1929 sua carreira está destruída e seus trabalhos censurados. Após se casar pela terceira vez, continuou seus trabalhos criticando o regime soviético. Sua obra mais famosa é O Mestre e a Margarida, que levou doze anos para ser concluída. Faleceu em março de 1940 de uma doença hereditária nos rins.